Se há uma imagem que define a esquizofrenia do poder nesta semana, é o contraste entre o tilintar das taças na Granja do Torto e o silêncio sepulcral que agora paira sobre os silos nucleares do hemisfério norte. Enquanto Brasília opera no seu microcosmo de afagos e corporativismo, o mundo acaba de ficar um lugar exponencialmente mais perigoso. Vamos aos fatos, sem anestesia.

1. O Jantar dos Novos Melhores Amigos

Na Granja do Torto, a cena foi de um idílio político quase comovente — se não fosse puramente pragmático. O presidente Lula, mestre na arte da conciliação (ou da cooptação, dependendo do ângulo), derreteu-se em elogios a Hugo Motta.

Não se enganem: não é amor, é sobrevivência. Ao afagar Motta, Lula não está apenas saudando o novo presidente da Câmara; ele está beijando a mão do "Centrão" que, mais do que nunca, detém a chave do cofre e da governabilidade. O "presidencialismo de coalizão" virou "presidencialismo de rendição"? O jantar sugere que o Executivo aceitou que, para não sangrar, precisa alimentar o leão com filé mignon. A fatura desses elogios chegará em forma de emendas e cargos. Hugo Motta sai do jantar maior do que entrou; Lula sai com a promessa de paz, mas com o cheque pré-datado na mão.

2. O Esqueleto no Armário: Banco Master e a CPMI

Enquanto o vinho era servido na residência oficial, nos corredores frios do Congresso, uma bomba-relógio tiquetaqueava. A CPMI do INSS prepara-se para quebrar o sigilo do Banco Master.

Isso é muito maior do que parece. Se o jantar no Torto representa a "política da boa vizinhança", a quebra de sigilo do Banco Master é a "política da terra arrasada". Estamos falando de fundos de pensão, de dinheiro de aposentadoria e de conexões que podem fazer corar muita gente que hoje posa de estadista. Se essa tampa for levantada com vontade, o cheiro de enxofre pode chegar à mesa onde Lula e Motta jantavam. O sistema financeiro periférico sempre foi o calcanhar de Aquiles de grandes governos. Fiquem de olho: onde há fumaça de sigilo bancário caindo, há incêndio político vindo.

3. O STF e a Ética "Intocável"

Do outro lado da Praça dos Três Poderes, o Supremo Tribunal Federal deu uma aula de "autofagia reversa": a autoproteção. O cancelamento da reunião sobre o novo código de ética pelo ministro Edson Fachin não foi um ato administrativo; foi uma capitulação.

Ao ouvir os "recados" de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o STF mandou um recado claro à nação: a Corte não aceita coleiras, nem que sejam de auto-regulamentação. Moraes e Toffoli, figuras centrais do "STF combatente" dos últimos anos, deixaram claro que o momento não é de freios. O problema é que um poder que se recusa a discutir sua própria ética, sob o argumento de que isso enfraquece a instituição, acaba por alimentar a besta da desconfiança popular. O Supremo quer ser o fiel da balança, mas recusa-se a subir nela para ser pesado.

4. O Fim do Mundo (e ninguém notou)

E para fechar a tampa do caixão da sensatez: enquanto discutimos jantares e códigos de ética, o tratado New START (ou o que restava de controle nuclear entre EUA e Rússia) expirou.

Pela primeira vez em décadas, as duas maiores potências nucleares do planeta não têm nenhum limite legal para o tamanho de seus arsenais. O "relógio do juízo final" avançou. A arquitetura de segurança global construída com suor durante a Guerra Fria desmoronou hoje. Putin e Washington estão livres para uma nova corrida armamentista.

O Resumo da Ópera: O Brasil é um país curioso. Nossas elites políticas jantam felizes celebrando a governabilidade interna e blindam o judiciário de qualquer autocrítica, enquanto o sistema de previdência é assombrado por escândalos bancários. E, lá fora, o mundo entra na era mais perigosa desde a Crise dos Mísseis.

Brasília dança um minueto elegante no convés do Titanic, ignorando que o iceberg nuclear lá fora acabou de ficar muito maior. Prioridades, senhores. Prioridades.