No início da década de 40 os brasileiros acompanhavam o início da guerra somente pelos jornais, e assim foi o contato brasileiro com a contenda mundial durante grande parte da guerra. É correto afirmar que o Brasil se manteve neutro em relação ao conflito. Porém, essa posição mudaria drasticamente em fevereiro de 1942, quando submarinos italianos e alemães lançaram torpedos contra diversas embarcações brasileiras no oceano Atlântico.  

Essa “neutralidade”, no entanto, era bem mais teórica do que qualquer outra coisa, afinal, como explica o artigo disponível na Biblioteca Virtual de Direitos Humanos da USP, onde nosso país adere à Carta do Atlântico em 6 de fevereiro de 1943 — formalmente em 9 de abril do mesmo ano. 

O tratado pregava uma colaboração mútua entre os Aliados, que abriram mão de tentar qualquer tipo de ampliação territorial ou intervenção política nos outros países envolvidos, preservando a soberania de cada nação. 
 
Além do afundamento das embarcações, a pressão dos americanos também influenciou essa escolha. Os americanos estavam interessados no potencial de produção de borracha, uma vez que as principais fontes de borracha do mundo tinham caído nas mãos dos japoneses. Eles também precisavam de uma base no Rio Grande do Norte para estabelecer uma ponte aérea com o continente africano, o que facilitaria o transporte de tropas, suprimentos e veículos para o front.  

Mas o presidente Vargas tinha outra coisa dos americanos, Getúlio queria verba para a criação da siderúrgica nacional (no caso, a futura siderúrgica de Volta Redonda). Mas o envio de soldados brasileiros não foi motivado somente pelo orgulho em servir e livrar o mundo das dores da guerra, eles foram enviandos para o esforço de guerra com o objetivo de aumentar as possibilidades do Brasil fazer parte das mesas de negociações no pós-guerra.

Tirando os motivos menos nobres da causa, a participação do Exército Brasileiro foi importante para ajudar nossos combatentes em sua modernização, tanto em termos de material bélico, quanto em termos de doutrinas, pensamento tático, estratégico, entre outros ganhos de caráter mais intelectual do que material.

Antes da Segunda Guerra a doutrina seguida pelo Exército Brasileiro era inspirada na doutrina francesa da Primeira Guerra Mundial, considerada obsoleta para a segunda, uma vez que era adaptada para uma guerra mais estática, de trincheiras, enquanto a Segunda Guerra Mundial foi uma guerra de movimento, avanço (como ocorrido durante o episódio da Blitzkrieg, que foi considerada uma inovação para a época).

Voltando os olhos para o governo brasileiro, quando Vargas chegou ao poder, em 1930, a Ação Integralista Brasileira também começou a prosperar por aqui. Existem aqueles que percebem nesse movimento alguns traços do fascismo italiano e no integralismo português, a AIB foi o primeiro partido de massas do país, criada em 1932 pelo escritor e teólogo Plínio Salgado.  

Em sua essência, os integralistas eram caracterizados por sua defesa à moral religiosa, pelo nacionalismo e, principalmente, pela defesa da hierarquização social, tida como a melhor forma de manter a ordem e a paz na sociedade.   

Apesar do flerte com o integralismo de traços fascistas, Getúlio Vargas foi absolvido por muitos historiadores que não crêem que o presidente de ideologia inclinada mais para a esquerda trabalhista, teria abdicado de suas convicções ideológicas e voltado seus olhos por um momento ao integralismo. A relação entre Vargas e os integralistas foi muito mais um exercício de pragmatismo do que de adesão ideológica, pois Vargas não se considerava confortável com as doutrinas fascistas. 

Mas Getúlio Vargas precisa se posicionar no tabuleiro da guerra, pensando nisso adotou um discurso pró-democracias ocidentais, visto como necessário para que o Brasil estivesse na mesma página que os demais aliados. Nessa época Getúlio percebeu que precisava se reinventar como um defensor da democracia, e com essa visão a Força Expedicionária Brasileira (FEB) ganha força e se torna o instrumento fundamental desse processo. A FEB ganhou tanto respeito e importância que existe uma tese de que Vargas dissolveu a FEB por medo desta ser utilizada para derrubar seu regime ditatorial. Alguns historiadores consideram a tese ultrapassada, mesmo que ainda seja muito difundida e encontre lastro em fatos e atos históricos. A verdade comprovada em tudo isso é que Getúlio queria usar o prestígio adiquirido pela FEB para solidificar a imagem de defensor das democracias.

O BRASIL AVANÇA NA GUERRA -  O Brasil dava largos passos na guerra após estreitar as relações com os norte-americanos na busca por material bélico. Soldados brasileiros passaram por uma fase de recrutamento, onde o plano original era de recrutar aproximadamente 60 mil soldados, mas por conta dos critérios mínimos que precisavam ser atendidos por parte dos recrutas, muitos eram recusados.

Ao fim, menos da metade foram aceitos: 25.334, que estavam divididos entre soldados, médicos, técnicos, entre outros. No entanto, é importante ressaltar que, justamente por esses soldados terem passado pelos rígidos critérios de recrutamento, eram considerados o que tínhamos de melhor em termos de material humano para uma guerra em termos de aptidão física.

Os americanos não tinham muito interesse na integração de brasileiros em suas filas de combatentes, afinal, os Estados Unidos tinham interesses voltados ao posicionamento geográfico do Brasil em relação as questões logísticas de guerra e também na matéria prima (borracha) encontrada em grande escala em nossas terras do norte. Nossos combatentes não eram itens de primeira prateleira naquele momento. O brasileiro teria que provar o seu valor! Para provar esse valor e enxergando o capital político da guerra, Vargas fez questão de enviar tropas, estas, foram à Itália e permaneceram subordinadas ao 5° Exército dos Estados Unidos.

A FEB FAZ HISTÓRIA NA ITÁLIA - Uma das principais contribuições da FEB no conflito se deu durante a conquista de Monte Castello, já nos últimos momentos da Guerra. O Alto Comando aliado tinha uma meta muito clara em mente: enquanto soviéticos avançavam pelo leste europeu, eles queriam conquistar a cidade de Bolonha até o Natal de 1944. 

A tomada do território, na visão deles, significaria manter o inimigo sob pressão na península italiana. Assim, a FEB foi escolhida para ajudá-los nessa missão. Embora não fosse a primeira vez que os brasileiros combatiam os alemães, foi a primeira vez que os brasileiros tiveram consideráveis baixas em uma batalha tão sangrenta. A imagem era de terror, mas com um toque brasileiro de superação. Para os combatentes da FEB, tomar Monte Castelo era questão de honra, e quando finalmente o monte foi conquistado, os soldados lavaram a alma ao som da canção do expedicionário. 

Estrategicamente, Monte Castelo era uma cadeia de montes que precisava ser tomada naquele contexto, e a importância que ele tem na memória da FEB é tremenda. Muitos historiadores depreciam a façanha da FEB, fazendo o feito parecer pequeno e insignificante. Todos os anos os italianos comemoram o feito da FEB e cantam a canção do expedicionário, ensinam suas crianças a guardarem e apreenderem sobre as memórias daquele episódio, respeitosamente tratam cada pracinha como heróis. Para os homens da FEB, para o exército brasileiro e para as famílias enlutadas com as perdas, a tomada foi visto como um março que levou o exército brasileiro do amadorismo ao respeito de outras nações como combatentes.

Duas semanas depois da última conquista da FEB no conflito, a guerra na Itália chegou ao fim. Em homenagem aos pracinhas brasileiros, o Museu Militar da Força Expedicionária Brasileira foi construído no interior de um castelo do século 12.

Mesmo assim, com o passar dos tempos, e com a ajuda de um currículo escolar desvalorizador das memórias (muito pelo período pós regime militar) o brasileiro passou a reconhecer cada vez menos as conquistas de nossos antigos combatentes. Os governos brasileiros, em geral, nunca deram muita atenção para os ex-combatentes da FEB, principalmente aqueles que não queriam de forma alguma enaltecer os feitos militares. Nós últimos 40 anos percebemos um ou outro político enaltecer a vitória na Itália e dar o devido apoio a FEB, mas milhares de febianos precisaram lutar por anos, às vezes até décadas para receber benefícios.

Desde os últimos acontecimentos, mais precisamente de 2016 para cá, é que a memória da FEB começou a ser mais enaltecida pelos brasileiros, dando lastro ao Exército Brasileiro para usar como chamariz para suas fileiras.