A comunidade negra brasileira luta por reconhecimento já fazem algumas décadas, para muitos um tema complexo, delicado e muitas vezes questionável, mas não viemos aqui para fomentar ou jogar lenha na fogueira desse debate eterno. Enquanto muitos brasileiros de todas as raças choravam pelas esquinas, os irmãos negros e primeiros afrodescendentes brasileiros a cursar uma universidade, se tornariam ao longo dos anos e da história os dois maiores engenheiros do Brasil no século XIX. O caminho profissional traçado por eles parecia improvável se levarmos em consideração sua origem. 

A luta por um futuro começaria ainda com o pai, Antonio Pereira Rebouças, filho de uma escrava alforriada e de um alfaiate português. O pai dos irmãos Rebouças era um dos poucos advogados negros a ocupar um cargo relevante no período do Brasil Imperial, chegando ao posto de conselheiro de Dom Pedro II.

A vida dos irmãos não foi fácil, muito em razão do fato de serem negros, eles sempre enfrentaram percalços de natureza burocrática ou preconceituosa, mas o pai dos Rebouças conseguiu pavimentar uma trilha um pouco menos dolorosa para os predestinados irmãos engenheiros.

Os irmãos André e Antonio Rebouças


OS FEITOS DA DUPLA – Com muita luta e empenho os irmãos foram trilhar o caminho acadêmico na Europa e após concluírem a trajetória acadêmica, os irmãos se especializaram na construção de estradas. Com a formação concluída, logo iriam trabalhar nas grandes obras brasileiras. Ao desembarcarem no Paraná, assumiram parte da responsabilidade de transformar uma província ainda em construção em uma verdadeira cidade. Em 1864, uma década depois da Emancipação de São Paulo, iniciaram sua trajetória na região. O chafariz na Praça Zacarias, em Curitiba, a Estrada da Graciosa, a Ferrovia Paranaguá-Curitiba (considerada a maior obra da engenharia férrea nacional) e o Parque Nacional do Iguaçu são alguns dos legados dos engenheiros.

No Rio de Janeiro, André realizou várias obras que lhe conferiram projeção como engenheiro civil, a exemplo do plano de abastecimento de água para a cidade, durante a seca de 1870, a construção das docas da Alfândega e das docas D. Pedro II. Permaneceu nessa atividade de 1866 até novembro de 1871, quando inesperadamente se demitiu.

SAUDADE, LUTA E EXÍLIO - Após a morte do irmão Antônio em 1874, muito abalado, resolveu tomar parte de sociedades empenhadas na luta contra o trabalho escravo no país. Engajado na campanha abolicionista, ao lado de Machado de Assis e Olavo Bilac, foi um dos representantes da classe média brasileira com ascendência africana e uma das vozes mais importantes em prol da abolição.

Participou da fundação de algumas dessas sociedades, tais como a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão e a Sociedade Abolicionista, criadas juntamente com seus alunos da Escola politécnica. No ano de 1883, após viagem aos Estados Unidos e Europa retorna resolvido a dar continuidade às campanhas contra a escravidão no Brasil, já animadas pelas manifestações de rua e pelos debates parlamentares.

A abolição assinada pela Princesa Isabel acirrou os ânimos dos grandes proprietários de terras, culminando com o movimento militar de 15 de novembro de 1889 e a proclamação da República. Fiel ao Imperador D. Pedro II e ao regime monárquico, André embarcou juntamente com a família imperial no paquete Alagoas com destino ao exílio na Europa.

Inicialmente, André permaneceu em Lisboa, com intensa atividade como jornalista correspondente do “The Times” de Londres. Porém logo transferiu-se para Cannes, na França, onde ficou até a morte de D. Pedro II.
Financeiramente arruinado, aceitou emprego em Luanda, na África, por pouco tempo, mudando-se posteriormente para Funchal, na Ilha da Madeira, em meados de 1893. André jamais retornaria à Europa ou à sua terra natal. Seu precário estado de saúde e intenso abatimento pelo exílio cercou de mistério sua morte, aos 60 anos.

CURIOSIDADES - O Túnel Rebouças, no Rio de Janeiro, leva este nome em homenagem aos irmãos. Próximo à entrada do local, na Praça José Mariano Filho, foram construídos bustos para lembrar a contribuição dos Rebouças.

A administração pública de Curitiba homenageou os irmãos Rebouças batizando não só uma das ruas dessa região com o nome de Engenheiros Rebouças, mas toda a região. Hoje, o bairro Rebouças é uma das localidades mais valorizadas de Curitiba.

Em São Paulo existe a Av. Engenheiros Rebouças.

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Bruno Diniz - É Historiador, Pós-graduado em Ciência Política, trabalhou por vários anos como consultor legislativo na Câmara Federal. É autor de vários artigos em versões impressas e on-line. Contribuiu para veículos como Revista Superinteressante, jornal Correio do Estado – MS (foto jornalismo) e sites de notícias de Mato Grosso do Sul. Blogueiro e apreciador do jogo político.

Fontes
- Especial Consciência Negra – Irmãos Rebouças, publicado pela Universidade Corporativa do Transporte (UCT).
- Saga dos Engenheiros Rebouças, publicado por Marcos Nogueira.
- Irmãos Rebouças: os incríveis primeiros engenheiros negros do Brasil, publicado por Sam Shiraishi.
- Irmãos Rebouças: os engenheiros que fizeram história em Curitiba, publicado pela Câmara Municipal de Curitiba.
- O Paraná segundo os Rebouças, publicado pela Gazeta do Povo.
- INBEC