Sua quarta viagem ao exterior, foi a mais traumática e violenta possível, se tratava da expulsão da família imperial devido a proclamação da República por meio de um golpe militar com ações pela madrugada enquanto o povo dormia. Todos os familiares do imperador foram expulsos com a roupa do corpo, a Imperatriz do Brasil, Dona Teresa Cristina, não pode nem mesmo levar uma maleta com algumas mudas de roupas para trocar no decorrer da viagem.

Seu neto e grande amigo Pedro Augusto que já sofria de esquizofrenia e tinha melhorado bastante graças as visitas do doutor Freud, teve um novo surto ao longo da viagem, tentando jogar-se ao mar gritando por socorro e prontamente contido e amordaçado por militares.

Pombos com mensagens e bilhetes de ajuda dentro de garrafas foram jogados em meio a saída da baía de Guanabara e até mesmo em alto mar, ação inútil, mesmo com algumas garrafas chegando ao litoral carioca , paulista , cearense e baiano dias depois da partida.

O povo acordou no dia seguinte com tropas militares desfilando com pompa para brindar a chegada da República, enquanto aqueles que eram leais ao imperador eram espancados, outra parte da população estava em estado de choque e não entendia o que estava acontecendo.



Vários artistas e intelectuais da música, do teatro, jornalistas, escritores, poetas foram exilados para Angola e Amazônia por defenderem a permanência de D. Pedro II. Além do começo de uma grande ditatura e o rompimento de todos os processos sociais de melhoria da vida dos recém libertos da abolição e o fechamento dos principais jornais da época que começaram a sofrer severa censura por tempo indeterminado.

Passados 130 anos da chuvosa madrugada em que a família imperial brasileira embarcou em um navio rumo ao exílio, o melancólico fim da monarquia ganha um relato tingido de tristeza na voz de uma protagonista da história – Maria Amanda Paranaguá Dória, a baronesa de Loreto.

Seu diário, esquecido nos arquivos do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), no Rio de Janeiro, narra com riqueza de detalhes a jornada para a Europa do grupo que tinha à frente o já ex-imperador Pedro II – material que, recuperado, nos mostra algumas das dificuldades enfrentadas pelo imperador ao deixar o Brasil.

Outros diários conhecidos versaram sobre a viagem, inclusive um do próprio dom Pedro. Mas das impressões de Maria Amanda, dama de companhia da imperatriz Teresa Cristina (chamada de Amandinha no círculo imperial), resulta uma visão particularmente tocante.

O primeiro caderno, de 120 páginas, se encerra com o momento carregado de dor em que dom Pedro chora a morte de Teresa Cristina, três semanas após o desembarque em Portugal.

“Esse tipo de diário é raríssimo, já que poucas mulheres registravam suas memórias no Brasil imperial, e tem o mérito de documentar um importante capítulo da história sob o calor da emoção”.

O barão e a baronesa de Loreto acompanharam o imperador no exílio por vontade própria, em demonstração de fidelidade. Juntaram-se à comitiva de duas dezenas de integrantes que, dois dias depois de proclamada a República, se dirigiu ao cais em tom de marcha fúnebre, embalada pelo silêncio do Rio de Janeiro que dormia.

Foram de lancha até o cruzador Parnaíba e, nele, até a enseada do Abraão, na altura de Angra dos Reis, quando se transferiram para o vapor Alagoas. “O mar estava um pouco agitado e, temendo enjoo, que me é inevitável, fui entrinchei­rar-me no beliche, onde me deitei com vivas saudades e lembranças de origens diversas”, anotou a baronesa na primeira de vinte noites ao mar.

Em escrita simples e clara, ela destaca a nostalgia e a resignação dos passageiros, sobretudo de D. Pedro II. Quase todas as menções a ele são acompanhadas da palavra “saudade”.



Não se discutia política a bordo, só literatura. Ali, dom Pedro manteve o hábito das rodas de leitura noturnas, às quais ele próprio batizou de “conversações saudosas”.

A vida relativamente simples que a família imperial levava no Rio de Janeiro se reproduzia a bordo. Não havia festas, banquetes ou roupa de gala; no dia do aniversário do imperador, 2 de dezembro, abriu-se uma garrafa de champanhe, de que todos compartilharam. Ele ergueu-se com a taça em riste e disse: “Brindo à prosperidade do Brasil”. A imperatriz não participou; sentia-se mal. “As outras senhoras estavam mais ou menos enjoadas e nem se mexiam nas suas cadeiras”, ressalta a baronesa.

D. Pedro II fazia pouco-caso da maioria dos rituais, mas, mesmo assim, segundo o diário, os almoços e jantares eram servidos sobre uma mesa miseravelmente aparelhada, e a princesa Isabel vivia escoltada por seus filhos. A falta de dinheiro impedia que o imperador, como era seu costume no Brasil, fizesse doações. Amandinha relata que, numa escala na ilha de São Vicente, em Cabo Verde, ele fez questão de dar metade de todo seu pouco dinheiro a um padre, para que distribuísse aos pobres.

A baronesa de Loreto também se estende sobre um dos maiores motivos de preocupação a bordo do Alagoas: o comportamento do neto mais velho do imperador, Pedro Augusto.

Preparado desde criança para assumir o trono, Pedro Augusto – que tinha tendências paranoicas e viria a ser encerrado em um manicômio – sofreu surtos psicóticos, os quais os demais passageiros atribuíam à aflição que lhe causava a movimentação do navio encarregado de fazer a segurança do Alagoas.

“Todas essas manobras só têm servido para assustar o príncipe D. Pedro Augusto, que, desde ontem, sofre de super excitação nervosa, se acha possuído de pânico e pensa que estamos todos perdidos e não chegaremos a Lisboa. O seu estado é lastimável”, registra o diário.



A imperatriz Teresa Cristina também apresentava preocupações com sua saúde e viajava adoentada. Ela logo morreria vitimada por um infarto. A baronesa é taxativa e lança parte da culpa na República: “Desde que saiu do Brasil, ela mostrava-se impressionada pelos horrorosos acontecimentos tão sabidos. Eles, sem dúvida, concorreram para a sua morte”. A cena mais impressionante descrita no diário é justamente a morte da imperatriz em um hotel simples da cidade do Porto, para onde havia se retirado.

D. Pedro II tivera uma amante; a condessa de Barral, com quem manteve um romance de 35 anos e que continuava vivo naquele momento. Mas, no quase meio século em que esteve casado com Teresa Cristina, apegara-se a ela no momento da morte de sua esposa. “Antes de soldar-se a urna, o imperador quis despedir-se da imperatriz e mandou chamar a todos nós para fazermos também nossas despedidas”, escreveu a baronesa.

“Não se pode descrever a dor dos príncipes e a nossa. Beijamos-lhe a mão e choramos copiosamente sobre o seu corpo sem vida.” O próprio D. Pedro II, normalmente contido em suas reações, não escondia a tristeza.

“Ele abraçou a sua muito amada esposa soluçando e foi logo retirado dali pelo Mota Maia (médico da família). A princesa beijou sua santa mãe repetidas vezes; o mesmo fizeram os príncipes, e nós beijamos a mão de nossa imperatriz, que fora sempre tão boa e carinhosa.”

O choro de D. Pedro II era também por ele, que acabara de deixar seu amado país, perdeu a esposa e refletia sobre suas ações vividas até ali. D. Pedro II acabou morrendo dois anos depois, aos 66 anos, de pneumonia, em um modesto hotel de Paris pago por amigos, onde viveu o fim de seus dias.

A baronesa de Loreto voltou com o marido ao Rio de Janeiro, onde morreu em 1931, aos 82 anos, sem jamais publicar seu relato da viagem que mudou tantas vidas e que agora, enfim, vem à tona.

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