“A trilha era feita a cavalo por sobre os montes goianos, e o bater dos cascos no solo eram ouvidos de uma forma incomum, pareciam vir debaixo da terra e não do bater dos cascos nas pedras da trilha, parecia uma batida oca, onde mais parecia que a terra estava roncando. Assim, foi dado o nome de Terra Ronca as trilha que cruzavam os montes, mas logo depois a fazenda foi batizada com este nome e por último o parque foi chamado de Terra Ronca.”


Relato: Guia Ramiro


O “ronco” das águas no interior das cavernas dão nome e fama ao Parque Estadual da Terra Ronca, esta rara beleza natural está localizada entre os municípios de São Domingos e Guarani de Goiás, na divisa de Goiás com a Bahia. Estas cidades também servem como ponto de apoio para expedições profissionais e de estudos avançados.

O complexo de cavernas da Terra Ronca foi esculpido por rios subterrâneos durante mais de 600 milhões de anos. Além da água corrente sob a terra, os cenários, decorados caprichosamente pela ação da natureza, são de extrema e rara beleza. Os tesouros subterrâneos são de valor inestimável, foram formados a partir do gotejamento no teto, gerando esculturas tanto de cima para baixo (estalactites), como de baixo para cima (estalagmites). Essas frágeis estruturas, conhecidas como espeleotemas, e levam milhares de anos para serem esculpidos e requer o uso de lanternas, bem como, equipamentos de segurança e guias experientes.

AS MAIS VISITADAS DO COMPLEXO
As cavernas mais visitadas do parque são as de Terra Ronca I e II, Angélica, São Mateus, São Bernardo, São Vicente e Lapa do Bezerra. A que deu nome ao parque está dividida em duas partes por causa de um desmoronamento. (Visitamos Terra Ronca I) Terra Ronca I é a mais visitada e imponente de todas, pois conta com uma entrada de quase 100 metros de altura por mais de 100 de largura. Belos salões que chegam a mais de 700 metros de comprimento por mais de 100 em sua largura.

A PAISAGEM, BELEZA E TRAJETO...
A paisagem do Cerrado e a Serra Geral de Goiás, nos oferecem as trilhas, veredas, rios e cachoeiras em um cenário exuberante. A Terra Ronca é um destino encantador para todos os clubes que querem praticar o ecoturismo. Para nós de Brasília o parque não fica tão distante, pois pouco mais de 400 quilômetros nos separam desta beleza natural (via BR-020). As estradas de terra com seus quase 70km de extensão, podem ser um fator complicador para veículos de pequeno porte, mas em quase todo o trajeto está em ótimo estado de conservação.


DESCONHECIDA POR MUITOS...
Não sei até quando, mas as belezas ainda escondidas nas entranhas da terra, ainda são pouco exploradas pelo turismo, mas muito pesquisada por geólogos, biólogos e espeleólogos que em estudos ao longo dos anos já localizaram centenas de cavernas. Muitas das cavernas do local são atravessadas pelos rios que cortam o parque. Um misterioso mundo subterrâneo revelado aos visitantes pela luz das lanternas, tendo o auxílio de guias experientes que podem ser contratados nas proximidades do parque.

Fique atento, pois a maioria dos atrativos ficam localizados ao longo do percurso, muitos na altura do povoado de São João Evangelista, que também oferece hospedagem, alimentação e guias locais autorizados a entrar nas cavernas.



MUITO PARA VISITAR...
Não pude ir até o complexo de cavernas da Terra Ronca II, mas em um bate-papo com os guias locais, me disseram da bela experiência em atravessar o rio da Lapa, com água na cintura, falaram sobre o oco das Araras que é margeado por uma dolina (espécie de cânion) de 80 metros de altura, o salão dos Namorados, adornado por colunas de estalactites, estalagmites, ninhos de pérolas calcárias, flores de aragonita e calcita que lembram porcelana. Quando eu achava que o papo estava chegando ao fim o guia me conta sobre a beleza natural da caverna Angélica, alegando que ela está entre as mais belas e maiores do Brasil. Com uma travessia completa, de 14 quilômetros, com pernoite em seu interior, alegando levar 24 horas seguindo o curso do rio Angélica. Certamente uma grande aventura para qualquer clube de Desbravadores. Quando o guia emendou a caverna de São Bernardo, eu já estava triste em ter que voltar para casa, mas deu tempo dele destacar o belo Salão das Pérolas esculpidas pela água e ainda me dizer que é a caverna mais radical do parque, podendo acessá-la por uma descida de rapel e conta 12 cachoeiras em seu interior. Um fenômeno muito raro!


O PEIXE RAMIRO...
O papo ia correndo e a turma embarcada já se despedia do parque, mas eu estava em outro veículo e pude ficar para a última história do dia. O guia me contava sobre uma curiosidade que muito lhe orgulhava e sobre a diversidade de animais que vivem na escuridão das cavernas, e foi falando sobre os bagres cegos e albinos que se adaptam ao ambiente sem luz e que contrastam lindamente com a beleza dos espeleotemas e os rios subterrâneos que fazem do parque um espetáculo da natureza.

O nosso guia foi o famoso Seu Ramiro, que além de guia se intitula como um guardião do parque. Com muita alegria me contou que alí foi batizado e se casou, tudo em um pequeno altar na entrada da caverna e que chamam por lá de “lapa de Terra Ronca”, onde ocorre todos os anos os festejos de sua crença. Mas eu ainda estava curioso pelo final da proza, pois Seu Ramiro é um homem de intermináveis histórias, por conta da mais que centenária atividade de sua família naquela região. Ele então respirou fundo e com o peito cheio de orgulho contou o detalhe final da história. Ele emprestou seu nome de batismo para o nome cientifico da variação do peixe cego de Terra Ronca. Uma homenagem, tanto pela indicação de onde e como encontrar o peixe aos cientistas que catalogaram a nova espécie de bagre e também por sua relevante descoberta de boa parte das cavernas já mapeadas pelos espeleologistas.

O dia chegou ao fim, mas as histórias foram o ponto alta da visita. Ainda temos muito para falar sobre essa aventura, mas por hora ficaremos por aqui. Até a próxima postagem!