“Chega hoje ao Brasil o egípcio Boutros-Ghali, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Presente em nossos noticiários das últimas semanas, declarou que a ONU está à beira da falência, demitiu 10% de seu quadro de pessoal e apontou os grandes devedores da organização. ”

São Paulo, terça-feira, 27 de fevereiro de 1996

A ONU ESTÁ À BEIRA DA FALÊNCIA...

O Brasil corre em busca de uma cadeira permanente no conselho de segurança desde que eu tinha meus 16 anos, no já distante ano de 1996, o egípcio Boutros-Ghali, era candidato à reeleição como secretário-geral, como todo bom político, chegou ao batente de um dos maiores e menos considerados contribuintes da ONU para pedir apoio. Quando falo em menos considerado, quero dizer quem somente nos últimos 21 anos, sem retroceder ainda mais no tempo, o Brasil tem sido um dos 10 países que mais tem contribuído financeiramente com a organização e dela não tem recebido a devida contrapartida, pois além de não contar com a cadeira permanente no conselho de segurança, nosso país quase não possui representatividade no quadro funcional da organização. Hoje são pouquíssimos brasileiros envolvidos diretamente na ONU, enquanto países com menor contribuição e vulto na organização possuem expressiva representatividade. Mas temos que voltar ao nosso tema! O ano em que a ONU estaria à beira da falência...

Em 1996 uma discussão formal e urgente trataria da reforma da ONU. Naquele ano, todos reconheciam que a organização não conseguia realizar seus objetivos e, pior, transformava-se numa gigantesca máquina burocrática. Tudo por conta dos favores prestados e muitas outras facilidades concedidas a altos funcionários e a diplomatas dos países membros na época. Os milhares de cargos da ONU e afins também eram um peso impossível de ser carregado pela organização. Principalmente porque desse peso que a organização era obrigada a sustentar, resultava em pouca contrapartida daqueles que sugavam a instituição. O Brasil seguia ajudando financeiramente como nunca e enganado e enrolado como sempre.

A CORRUPÇÃO...

Os noticiários ao redor do mundo, estavam repletos de casos de malversação dos recursos e de corrupção, e somam-se à pouca clareza na análise da gestão orçamentária da organização. A ONU chegava a gastar mais de 60% dos recursos regulares com sua altíssima e garbosa folha de pagamento. Segundo dados do Banco Mundial para o ano de 1996, a população-alvo dos projetos de investimento não recebiam os recursos e tão pouco os auxílios previstos. A coisa não estava bem.

A organização estava sofrendo com corrupção, escândalos de todos os tipos e com a inadimplência de alguns países. Em 1996, os Estados Unidos estavam na posição de maior inadimplente da ONU. Mas era uma inadimplência proposital e não por falta de recursos, pois na época os países industrializados jogavam com a organização, usando-a em aspectos pontuais, quando lhes era conveniente. O interesse nacional de países inadimplentes, como os Estados Unidos predominava sobre o coletivo, este jogo de interesses unilaterais durou meio século, fazendo com que a ONU fosse bloqueada em suas tentativas de manter a paz e de buscar o desenvolvimento em nações menos favorecidas. Mas a hipocrisia era um fator ontológico à organização (Para mim, continua sendo...). A ONU foi criada com o objetivo de convencer o mundo de que os vencedores da Segunda Guerra eram de fato o mundo e não uma única nação. O Conselho de Segurança, cujos membros permanentes têm poder de veto sobre qualquer decisão, era composto em 1996 por China, Estados Unidos, França, Inglaterra e Rússia. E era nesta mesa que o Brasil queria se sentar. Para que o Brasil fosse aceito, o governo e os diplomatas brasileiros precisavam de uma estratégia. Logo foi traçado um plano inútil e quase de mendicância, pois ao entregarem nossas intenções em contribuir, estavam entre elas o desejo de apenas contribuir para mudar os critérios de associação dos países a ONU e a ampliação do número de vagas para brasileiros na organização. Não preciso comentar que o Brasil até hoje sonha com essa cadeira.

No ano de 1996, surgiram escândalos na ONU que podemos colocar como razões que acarretariam na possível falência da instituição, mas também vimos um Brasil que buscava um lugar ao sol na organização em meio ao caos vivido por lá. São duas histórias em um mesmo fato. Uma organização que agonizava e um país que nutria um sonho.

PODEMOS APRENDER COM O PASSADO...

Existem dois aspectos fundamentais a respeito do Brasil e da ONU que até hoje não foram percebidos por quem frequenta a organização desde 1996 ou até mesmo antes disso. O primeiro ponto, é muito simples!  Se o Brasil não está satisfeito com o atual sistema, deve antes de mais nada promover mudanças que dependem apenas dele. Uma redução substancial ou até mesmo o corte geral de verbas enviadas a organização, seriam uma atitude extrema, mas viável diante de uma espera de mais de 20 anos por um lugar no Conselho de Segurança. O Brasil também deve tornar pública a existência dos cargos que lhe são oferecidos nos organismos internacionais e traçar um comparativo com outras nações menos influentes. Deveria também lançar mão de programas específicos de formação e preparação de profissionais para os organismos internacionais em parceria com universidades públicas e privadas, divulgando estas vagas em todos os meios de comunicação do país, pois muitos não sabem que a ONU contrata profissionais de marketing, direito, enfermagem, secretariado, médicos, administradores e muitos outros seguimentos laborais. Isso ofereceria maior participação do povo em pressões a ONU em favor do Brasil. A União Europeia faz tudo o que eu acabei de citar e já derrubou o mito de que todos os funcionários internacionais devem ser diplomatas ou representantes dos governos. Outra providência indispensável e ainda muito frágil em nosso país e dentro do primeiro ponto, seria a transparência na utilização de recursos da organização no Brasil, e detalhado em cada unidade da federação. Hoje são frágeis e de acesso complicado.

O segundo aspecto é a nova estrutura só o Brasil poderá propor. Nosso país deve defender uma ONU preocupada com as questões sócio-econômicas mundiais. Reiterando a importância da cooperação internacional em alavancar o desenvolvimento dos países, o combate ao desemprego e enfrentamento das distorções sociais. Estes são os grandes desafios das relações internacionais contemporâneas.

Infelizmente, muitas vozes partidárias e oficiais no Brasil defendem que, prioritariamente, o país contribua em ações para a manutenção da paz mundial. Mas, esta prioridade deveria ser pauta das grandes potências que possuem um assento permanente no Conselho de Segurança. O Brasil deveria ficar fora dessa disputa por um lugar e concentrar seus esforços financeiros em questões internas, pois não estamos em condições de enviar milhares de soldados ao exterior, arcando com todos os custos, quando o Estado brasileiro não dispõe de recursos nem sequer para enfrentar os graves problemas na segurança pública e na saúde brasileira.

SERÁ QUE PRECISAMOS DE UMA CADEIRA?

Essa é uma questão que possui um peso significativo na política e relações internacionais, mas não pode ser isento de um debate nacional. O governo federal deve, no mínimo, enviar uma mensagem ao Congresso Nacional e ao povo brasileiro a respeito das ações e intenções, bem como, todo o montante que será investido todos os anos em organismos internacionais. Será que ao assumir uma cadeira permanente o Brasil poderia de alguma forma ter ainda mais influência na fragmentada América Latina? Esta é uma pergunta retórica, mas espero que você tenha refletido em todo o resto.

A ONU, após a péssima fase vivida em 1996, iniciou um projeto de abandono destas velhas práticas citadas ao longo do texto, a organização solicitou um maior comprometimento das nações em seus processos de construção de uma nova comunidade global. Hoje observamos uma ONU mais eficiente, democratizada, transparente e preocupada com o desenvolvimento das nações (Ainda distante do ideal). Nosso país tem sofrido retrocessos em sua credibilidade interna e externa, reconstruir nossa imagem, assim como a ONU fez, é um desafio tremendo para a jovem democracia brasileira. Se conseguirmos avançar em meio ao caos estaremos contribuindo para a reorganização do Brasil e futuramente estaremos comemorando nossa volta ao protagonismo internacional.