Vocês lembram daqueles tíquetes ou pequenas tiras de papel moeda que eram dadas as famílias na época do governo do Sarney para posteriormente serem trocadas por 1 litro de leite? Para os que não lembram ou não fizeram uso deles, vou lhes contar do que se tratavam.

Eram distribuídas cartelas com 30 tickets que a cada mês mudavam de cor. Geralmente a distribuição era feita por alguma secretaria de assistência social ligada ao governo local depois de repassada pelo governo federal (gestor e idealizador do projeto). Aqui em Brasília eram distribuídas pelo CDS uma espécie de centro de desenvolvimento social. Usar os tíquetes não era difícil! Você destacava um deles e ia até uma padaria ou mercado e trocava por 1 litro de leite. As pessoas faziam longas filas para conseguir uma destas cartelas, pois o leite era caro e o dinheiro não dava para muita coisa, ninguém tinha condições de guardar dinheiro para comprar diariamente o leite das crianças.

Mesmo tendo sido um governo ruim de um modo geral, o programa merece ser lembrado apenas, nesse período, pela tentativa de atender uma necessidade das famílias da época o Programa Nacional do Leite para Crianças Carentes (PNLCC), foi criado em 1986 no governo Sarney, atendia famílias com renda mensal total de até 2 Salários Mínimos e crianças de até 7 anos de idade. O programa foi muito malsucedido em sua abrangência e gestão. Mas não podemos negar que foi a primeira experiência em grande escala de distribuição de cupons de alimentos no Brasil.

Era uma boa idea?
Até que foi uma boa ideia. O programa estava vinculado diretamente à Presidência da República, e controlava a oferta (produção e importação de leite) e o sistema de distribuição. Os cupons, conhecidos como "tíquetes do Sarney" eram distribuídos às famílias carentes previamente cadastradas em entidades de base, na proporção de um litro de leite por criança. Não havia contrapartida por parte das famílias, e a falta de controle e mecanismos de fiscalização que pudessem conferir se os cupons estavam mesmo sendo trocados por leite foram minando a viabilidade do programa. Infelizmente muitas pessoas desviavam os tíquetes de sua finalidade. Eles acabavam sendo trocados por bebidas alcoólicas e até mesmo sendo utilizado no transporte ilegal de passageiros durante a década de 1980 como forma de pagamento das passagens (em Brasília).

Os custos oficiais do programa
Nunca foram divulgadas pelo governo informações sobre o custo desse programa e sobre os resultados das metas estabelecidas, de maneira informal e baseados em discursos da época, o programa visava em um primeiro momento, atender mais de 10 milhões de crianças. A indústria observou durante o programa um aumento significativo na produção de leite no país, mais de 20%, com o aumento vieram também as denúncias e constatações de fraude das cooperativas e empresas de laticínio. Algumas adulteravam o leite de várias formas para aumentar seus ganhos e atender outros mercados que consumiam o leite de melhor qualidade e menos diluído, pois o leite oferecido no programa era o chamado “tipo C”. O crescimento no consumo chegou ao impressionante número de 109 litros/ano por pessoa.

Foi a primeira vez...
Foi a primeira experiência na implementação de políticas de alimentação para pessoas carentes em um governo republicano. Foi também a primeira experiência de compra pública de gêneros alimentícios feita diretamente na rede comercial constituída. Não se estabeleceram novos canais de comercialização nem se distribuiu alimento em espécie, e sim o meio de compra para a aquisição de alimentos. As metas obscuras, números não divulgados, e os escândalos da época foram minando e inviabilizando o programa que na verdade parecia atender mais aos empresários e produtores do que a parcela consumidora beneficiada com o programa. Os tíquetes foram extintos assim que “caçador de marajás” e “pai dos descamisados” Fernando Collor assumiu a presidência, mas isso já é outra história.