A tragédia que ocorreu em São Paulo com o desabamento do Ed. Wilton Paes de Almeida, acendeu alguns alertas sociais em nosso país. Nos últimos meses tenho pensado muito sobre o assunto e decidi postar parte de um estudo de uma cientista social e minha opinião sobre tudo, pois a história é implacável e ao escrever em suas páginas em branco um fato, este jamais será apagado. Certamente poderá ser esquecido algum dia, mas nunca apagado. O prédio que desabou era ocupado por 372 pessoas, somando cerca de 146 famílias, segundo informações do Corpo de Bombeiros na época do ocorrido. De acordo com a prefeitura, 320 pessoas foram cadastradas como desabrigadas após o desabamento. 40 delas buscaram atendimento na assistência social. A ocupação era dividida em 12 andares completamente ocupados, cada andar tinha cerca de 6 domicílios (famílias ocupantes). São números expressivos se multiplicarmos pela quantidade de ocupações verticais que existem hoje em São Paulo e em todo o Brasil. Podemos afirmar que são favelas verticais e degradantes. A exploração humana e do patrimônio público e privado, formam a trindade da miséria vertical no Brasil.

A pesquisa
Em trabalho de Campo, a cientista social e professora Lidiane Maciel, da Universidade do Vale do Paraíba (Univap), em São José dos Campos, São Paulo, visitou a ocupação do Largo do Paissandu, na capital paulista antes do desabamento, lá foi registrado como era o dia a dia dentro de um edifício em estado de ocupação. Em nossa postagem iremos resumir as impressões percebidas pela pesquisadora em um contato direto com esta crescente realidade social do Brasil. Um fato documental que irá marcar a controversa história dos movimentos sociais pró-moradia no Brasil.

De onde vinham
Em uma tragédia paradoxal, o prédio que antes abrigava a Polícia Federal, contava com ocupantes migrantes do interior do Brasil e de outras nacionalidades, pessoas oriundas do Marrocos, Congo, Senegal, Haiti e Filipinas. Entre os migrantes do interior do Brasil a pesquisadora relata muitos ocupantes da Bahia, Paraíba, Paraná, Espirito Santo e Rio de Janeiro. Um dado ainda mais alarmante levantado pela pesquisadora era o tempo de moradia em logradouro público. A maioria dos ocupantes estavam no prédio há oito anos.

O sustento
Os moradores possuem como atividade laboral serviços de conservação, limpeza e serviços gerais, em grande parte são trabalhadores do mercado de trabalho formal. Ainformalidade também está presente, pois são muitos os vendedores ambulantes em meio aos ocupantes. Uma força de trabalho que em sua maioria atuavam no centro da cidade.

As moradias
As estruturas são bastante precárias. Há lixo por toda parte e em alguns andares como restos de móveis, restos de materiais de construção como privadas e tijolos. Algo surpreendente surge aos olhos quando se nota que em alguns andares a limpeza é destacada bem como sua estrutura bem organizadas. São divisões de moradias com cortinas, área de convivência coletiva e pequenos jardins. Cozinha e banheiros são comunitários. Serviço de água e luz chega somente até o quinto andar, obrigando os moradores dos outros andares a descerem para recarregar seus baldes para o uso cotidiano. Há uma portaria controlada por pessoas ligadas ao movimento ou escolhida pela direção daquela ocupação especifica.

As famílias
Chama a atenção as famílias monoparentais (filhos, mãe ou pai) tendo as mulheres como provedoras de seus filhos, há muitos homens solteiros que lá moram, havia muitas crianças brincando nos corredores também. Há regras de convivência e limpeza fixadas nas paredes de cada um dos andares. Elas regem desde o tipo de vestimentas de homens e mulheres até sobre a limpeza das áreas comuns.
Rovena Rosa/Agência Brasil
Os reais interesses
As histórias são tristes e marcantes, toda pessoa tem direito a uma moradia digna, saúde, alimentação, educação e muitos outros direitos sociais contemplados em nossa constituição em seu Capitulo II Art. 6º. Será que os guardiões desta carta magna, cumprem suas funções em velar pelo povo? Será que os movimentos sociais em favor de moradia digna, cumprem com seu papel de proteger aqueles que defendem? Será que a sociedade tem a real dimensão do problema que assola todo o país? São muitas as questões que infelizmente geram debates violentos e intolerantes, temos uma formação política que se aproveita das mazelas seja para atacar ou se defender. Bandeiras são erguidas, mitos construídos e as Marias e Josés, não querem acreditar em mais promessas, mas ficam sem opção e acabam por novamente acreditar naquilo que é mais do mesmo nos últimos 100 anos. O fogo, os escombros, as notícias e a comoção irão passar. Aqueles que antes estavam ali na praça desalojados, desabrigados e marginalizados estarão à mercê do próximo movimento que irá acolher sua causa, juntar os cacos e irão conduzi-los até a próxima ocupação. Nos corredores do poder nada será feito além dos belos discursos pedindo vida, liberdade e moradia. A trindade da miséria vertical seguirá no Brasil e só será vista, falada e discutida em uma próxima tragédia. Os reais interesses? Você já deve ter percebido quais são! 

Fotos: Lidiane Maciel e Rovena Rosa - Agência Brasil
Pesquisa: Lidiane Maciel, Professora e Cientista social da Universidade do Vale do Paraíba - Univap, São José dos Campos, São Paulo
Texto: Bruno Diniz, Historiador, UDF-Brasília