Acometido de grave doença pulmonar, Dom Pedro II morreu ainda jovem para os padrões atuais. Contava com 66 anos, mas a aparência de muito mais velho. Suas responsabilidades, as preocupações, a vida pública havia lhe imposto tal aparência. Carregava em sua face o peso de governar o Brasil.

Em 1891, na França, mais precisamente em Paris, o imperador viva no exílio, dias antes realizou um longo passeio pelo rio Sena em carruagem aberta, apesar da temperatura extremamente baixa. Ao retornar para o Hotel Bedford, à noite, sentiu-se resfriado. A doença evoluiu nos dias seguintes até tornar-se uma pneumonia. Até que no dia 04 de dezembro de 1891, o estado de saúde de D. Pedro II piorava rapidamente. No início da madrugada do dia 05 de dezembro de 1891, mais precisamente às 00:35 da manhã, em seu quarto do Hotel Bedford, acompanhavam o Imperador, sua filha Dona Isabel com o esposo Conde D’Eu e os filhos Príncipes Dom Pedro de Alcântara, Dom Luiz, Dom Antônio e os filhos da Princesa Dona Leopoldina com o Duque de Saxe, Dom Pedro Augusto e Dom Augusto, além de inúmeros brasileiros que moravam em Paris ou que para lá foram seguindo-o no exílio.

Em um suspiro final Pedro II disse a todos:

“Deus que me conceda esses últimos desejos, paz e prosperidade para o Brasil…”

Relatos dão conta que D. Pedro faleceu logo após pronunciar estas palavras.

D. Pedro II era admirado em todo o Mundo, e somente no dia de suamorte havia chegado ao Hotel Bedford mais de 2 mil telegramas prestando as condolências à Família Imperial. Poucas horas após a morte de Pedro II, milhares de pessoas compareceram ao Hotel Bedford, dentre elas, o Presidente do Conselho, Freycinet e os ministros da Guerra e da Marinha da França. Enquanto preparavam seu corpo, um pacote lacrado foi encontrado no quarto com uma mensagem escrita pelo próprio Imperador. No pacote continha terra de todas as províncias brasileiras e esta lembrança do Brasil foi colocada dentro do caixão. A mensagem dizia:

"É terra de meu país; desejo que seja posta no meu caixão, se eu morrer fora de minha pátria".

Dom Pedro II foi vestido em uniforme de Almirante da Armada do Brasil, com as medalhas e fitas das quais era dignitário, segurando o crucifixo em prata de lei, enviado pelo Papa Leão XIII.

O corpo foi colocado em três caixões:
- O primeiro de chumbo forrado em cetim embranquecido, com tampa em cristal
- O segundo, de nobre carvalho envernizado;
- O terceiro, de carvalho forrado de veludo negro.

O presidente francês Sardi Carnot, que estava em viagem pelo sul do país, enviou todos os membros da Casa Militar para prestarem homenagens ao falecido monarca. A Princesa Isabel desejava realizar uma cerimônia discreta e íntima, mas acabou por aceitar o pedido do governo francês de realizar um funeral de Estado. O governo francês queria prestar homenagens de chefe de estado ao Imperador, a representação diplomática do Brasil, na França, tentava convencer o governo francês a não fazer isso, pois poderia ferir suscetibilidades dos governantes republicanos brasileiros.

O governo brasileiro, agora republicano, tentou, em vão, impedir que a França fizesse o funeral do Imperador como Chefe de Estado. Rogou para que a bandeira Imperial não fosse hasteada e que os símbolos antigos não fossem utilizados e respeitados. De nada adiantou o governo francês prestou honras de estado a Dom Pedro II e a Família Imperial.

Embora republicano, o governo francês tinha a maior consideração pelo Imperador do Brasil, porque D. Pedro foi o primeiro Chefe de Estado a prestigiar a França, visitando-a oficialmente, após a derrota para a Prússia em 1870. Para evitar incidentes políticos, o Governo decidiu que o enterro seria oficialmente realizado pelo fato do Imperador ser grã-cruz da Legião de Honra, mas com as pompas devidas a um monarca. Como última homenagem formal, o governo francês do Presidente Sadi Carnot, resolveu oferecer a Dom Pedro II um funeral de Chefe de Estado.

A reação da imprensa no exterior foi simpática ao monarca

O jornal New York Times elogiou Pedro II, considerando-o:
“O mais ilustrado monarca do século” e afirmando que “tornou o Brasil tão livre quanto uma monarquia pode ser”.

The Herald escreveu:
“Numa outra era, e em circunstâncias mais felizes, ele seria idolatrado e honrado por seus súditos e teria passado a história como ‘Dom Pedro, o Bom”.

The Tribune afirmou que
seu “reinado foi sereno, pacífico e próspero”.

The Times publicou um longo artigo:
“Até novembro de 1889, acreditava-se que o falecido Imperador e sua consorte fossem unanimemente adorados no Brasil, devido a seus dotes intelectuais e morais e seu interesse afetuoso pelo bem-estar dos súditos [...] Quando no Rio de Janeiro ele era constantemente visto em público; e duas vezes por semana recebia seus súditos, bem como viajantes estrangeiros, cativando a todos com sua cortesia”.

O Weekly Register, por sua vez:
“Ele mais parecia um poeta ou um sábio do que um imperador, mas se lhe tivesse sido dada a oportunidade de concretizar seus vários projetos, sem dúvida teria feito do Brasil um dos países mais ricos do Novo Mundo”.

O periódico francês Le Jour afirmou que:
“ele foi efetivamente o primeiro soberano que, após nossos desastres de 1871, ousou nos visitar. Nossa derrota não o afastou de nós. A França lhe saberá ser agradecida”.

O The Globe:
“era culto, ele era patriota; era gentil e indulgente; tinha todas as virtudes privadas, bem como as públicas, e morreu no exílio”.

No dia 06 de dezembro de 1891, milhares de personalidades compareceram a cerimônia realizada na Igreja de la Madeleine. Os membros do governo republicano brasileiro, "temerosos da grande repercussão que tivera a morte do Imperador", negaram qualquer manifestação oficial.

No Brasil, na cidade do Rio de Janeiro, após ter sido noticiada a morte do Imperador, os jornais da Rua do Ouvidor e as casas comerciais haviam hasteado a bandeira a meio pau, o que provocou conflitos com a polícia e o novo governo republicano instituído, que queria obrigar a retirada das bandeiras daquela posição.

Contudo, o povo brasileiro não ficou indiferente ao falecimento de D. Pedro II, pois a "repercussão no Brasil foi também imensa", apesar dos esforços do governo para abafar. Houve manifestações de pesar em todo o Brasil; comércio fechado, bandeiras a meio pau, toques de finados, tarjas pretas nas roupas, ofícios religiosos. Foram realizadas "missas solenes por todo o país, seguidas de pronunciamentos fúnebres em que se enalteciam D. Pedro II e o regime monárquico". O povo manifestou-se solidário com as homenagens ao Imperador D. Pedro.

Em 07 de dezembro de 1891, de acordo com o dr. João Mendes de Almeida, em artigo escrito:

“A notícia do passamento de S. M. o Imperador D. Pedro II vem pôr à prova os sentimentos da nação brasileira com a dinastia Imperial. A consternação tem sido geral”.

“A República se calou diante da força e do impacto das manifestações”.

Em 08 de dezembro de 1891,em Paris na França, à era noite quando os caixões contendo o corpo de Pedro II saíram do Hotel Bedford com destino a Igreja da Madeleine. Oito militares franceses transportaram os caixões, cobertos pela bandeira imperial, sendo assistidos por mais de cinco mil pessoas. A carruagem utilizada fora à mesma dos enterros do Cardeal Morlot, do Duque de Morny e de Adolphe Thiers.


As personalidades presentes ao funeral

Era manhã do dia 09 de dezembro de 1891, França, Paris, e era iniciado o cortejo do imperador, chovia incessantemente e vento frio trazia o pesar daquela morte, uma verdadeira multidão começou a ocupar a Praça da Madaleine, milhares de personalidades da época compareceram a cerimônia. Além da Família Imperial Brasileira, estavam presentes:

Don Amadeo, ex-rei da Espanha,
Don Francis II, ex-rei das Duas Sicílias,
Dona Isabel II, ex-rainha da Espanha,
Luís Philippe, Conde de Paris, e diversos outros membros da realeza européia.

Também estavam presentes o General Joseph Brugère, representando o Presidente francês Sadi Carnot, os presidentes do Senado e da Câmara, assim como senadores, deputados, diplomatas e outros representantes do governo francês. Quase todos os membros da Academia Francesa, do Instituto de França, da Academia de Ciências Morais e da Academia de Inscrições e Belas-Artes também participaram.

Entre os presentes, estavam:
Eça de Queiroz
Alexandre Dumas
fils, Gabriel Auguste Daubrée
Jules Arsène Arnaud Claretie
Marcellin Berthelot
Jean Louis Armand de Quatrefages de Bréau
Edmond Jurien de la Gravière
Julius Oppert, Camille Doucet

Representantes de outros governos, tanto do continente americano, quanto europeu se fizeram presentes, além de países longínquos como: Turquia, China, Japão e Pérsia, com a exceção do Brasil.
Os correspondentes dos jornais Daily Telegraph e do Dauily Mail escreveram que havia tanta gente nos funerais de D. Pedro II quanto nos de Victor Hugo. Só se notou a ausência de um representante do governo brasileiro.

Apesar da chuva e temperatura extremamente baixa, cerca de 300.000 pessoas assistiram ao evento pelas ruas de Paris. A formação militar francesa, composta por 80.000 homens, todos em uniforme de gala, prestou honras ao Imperador. Os cavalos, os tambores das bandas de música e as bandeiras traziam ornamentos negros de luto. Os caixões foram levados em cortejo até a estação de trem, de onde partiria para Portugal.
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As Mensagens

Duas carruagens levavam quase 200 coroas de flores. Nelas, estavam escritas mensagens (algumas identificadas) homenageando o Imperador, tais como:

“A D. Pedro, Vitória R.I.”,

“Dos Voluntários da Pátria ao grande Imperador por quem se bateram Caxias, Osório, Andrade Neves e tantos outros heróis.”,

“Um grupo de brasileiros estudantes em Paris.”,

“Tempos felizes em que o pensamento, a palavra e a pena eram livres, que o Brasil libertava povos oprimidos...”
Barão de Ladário, Marquês de Tamandaré, Rodolfo Dantas, Joaquim Nabuco e Taunay

“Ao grande brasileiro benemérito da Pátria e da Humanidade. Ubique Patria Memor.”
Barão do Rio Branco

“Os Rio-Grandenses ao rei liberal e patriota.”

“Um negro brasileiro em nome de sua raça”.

O caixão foi levado em cortejo até a estação de trem de Paris, de onde partiu para Portugal. O governo republicano do Brasil não esteve representado, mas vários republicanos que ajudaram a derrubar a monarquia no Brasil, estavam presentes.

O corpo segue para Portugal em destino a Lisboa

A viagem prosseguiu até a Igreja de São Vicente de Fora, próximo a Lisboa, onde o corpo de Pedro II foi depositado no Panteão dos Bragança, entre os de sua madrasta D. Amélia e de sua esposa, a Imperatriz D. Theresa Cristina.

Em todos os locais que os caixões passaram, tanto na França, quanto como na Espanha, e por último, em Portugal, foram realizadas homenagens. A presença do Governo brasileiro republicano mais uma vez não foi percebida. Enquanto isso, no Brasil, a polícia foi enviada para impedir manifestações públicas de pesar, “provocando sérios incidentes enquanto o povo se solidarizava com os manifestantes”.

No mesmo dia no Rio de Janeiro, uma reunião popular com o objetivo de homenagear o falecido imperador foi realizada, tendo sido organizada pelo Marquês de Tamandaré, Visconde de Ouro Preto, Visconde de Sinimbu, Barão de Ladário, Carlos de Laet, Alfredo d'Escragnolle Taunay, Rodolfo Dantas, Afonso Celso e Joaquim Nabuco.

Até mesmo os antigos adversários políticos de Pedro II elogiaram o monarca deposto, mesmo que “criticando sua política, ressaltavam sempre seu patriotismo, honestidade, desinteresse, espírito de justiça, dedicação ao trabalho, tolerância e simplicidade”.

Quintino Bocaiúva, um dos principais líderes republicanos, falou:

“O mundo inteiro, pode-se dizer, tem prestado todas quantas homenagens tinha direito o Sr. Dom Pedro de Alcântara, conquistadas por suas virtudes de grande cidadão”.

Alguns “membros de clubes republicanos protestaram contra o que chamaram de exagerado sentimentalismo das homenagens", vendo nelas manobras monarquistas. Mas foram vozes isoladas diante do ocorrido.

Os brasileiros se mantiveram apegados a figura do imperador popular a quem consideravam um herói e continuaram a vê-lo como o Pai do Povo personificado. Esta visão era ainda mais forte entre os brasileiros negros ou de ascendência negra, que acreditavam que a monarquia representava a libertação.

O fenômeno de apoio contínuo ao monarca deposto é largamente devido a uma noção generalizada de que ele foi "um governante sábio, benevolente, austero e honesto". Esta visão positiva de Pedro II, e nostalgia por seu reinado, apenas cresceu a medida que a nação rapidamente caiu sob o efeito de uma série de crises políticas e econômicas que os brasileiros acreditavam terem ocorridas devido a deposição do Imperador. Ele nunca cessou de ser considerado um herói popular, mas gradualmente voltaria a ser um herói oficial.

Surpreendentemente forte sentimento de culpa foi manifestado dentre os republicanos, que se tornaram cada vez mais evidentes com a morte do Imperador no exílio. Eles elogiavam Pedro II, que era visto como um modelo de ideais republicanos, e a era imperial, que acreditavam que deveria servir de exemplo a ser seguido pela jovem república.

No Brasil, as notícias da morte do Imperador "causaram um sentimento genuíno de remorso entre aqueles que, apesar de não possuírem simpatia pela restauração, reconheciam tanto os méritos quanto as realizações de seu falecido governante."

Fontes:
- Barman, Roderick J. (1999). Citizen Emperor: Pedro II and the Making of Brazil, 1825–1891 (Stanford: Stanford University Press);
- Calmon, Pedro (1975). História de D. Pedro II (Rio de Janeiro: J. Olympio);
- Martins, Luis (2008). O patriarca e o bacharel 2ª ed. (São Paulo: Alameda);
- Schwarcz, Lilia Moritz (1998). As Barbas do Imperador – D. Pedro II, um monarca nos trópicos 2ª ed. (São Paulo: Companhia das Letras).
- Dom Pedro II, após ter servido o Brasil por 58 anos, dos quais 10 através na Regência e 48 de forma efetiva; o Maior dos Brasileiros, faleceu modestamente, em um hotel parisiense.