O Brasil tem reencontrado os fantasmas de um passado que assombrava todos os brasileiros. A geração do Real nunca havia recebido a visita da crise da forma como tem ocorrido nos últimos dias. A revolta da boleia eclodiu pelos custos elevados do diesel repassados aos transportadores e vem contaminando outras classes que dependem do mesmo diesel e agora até mesmo da gasolina para manutenção de suas atividades e consequente sustento de suas famílias. O movimento desnuda todas as necessidades da nação, expondo a total dependência em torno de uma classe. Certamente, não deveria ser nossa única e principal forma de escoamento de produção e principal canal de abastecimento e manutenção do país. Com uma malha ferroviária cada vez mais estagnada e voltada principalmente para o transporte de minério, nossos trens poderiam transportar combustíveis, alimentos e muitos outros insumos que reduziriam a dependência de caminhões em até 40% se bem aplicada..

Os caminhoneiros perceberam esta fragilidade mesmo na simplicidade acadêmica daqueles que iniciaram o movimento. Centrais sindicais, representações e muitas outras instituições tentaram representar a revolta da boleia, mas não tiveram sucesso. O movimento não tem um líder oficialmente constituído, o movimento é em favor da sobrevivência de uma categoria que alimenta a demanda do país, mas que ao mesmo tempo é sufocada pelos números implacáveis da crise.

O governo cometeu um grande erro ao erguer uma negociação com as pessoas erradas. A eficácia em uma mesa de negociações se dará pela presença de pessoas que estão vivendo a greve em seu dia a dia, uma representação de alguns estados por meio de seus grevistas, mostrariam ao movimento que de fato estão representados e que seus pleitos serão ouvidos e negociados. Os grevistas querem ver os seus negociando e não as supostas centrais sindicais.

A importância da categoria e a total dependência dela, acende alertas para que o Brasil desenvolva outros meios de transporte. Um país não deve ser refém de nenhuma categoria, por mais justos que sejam suas reivindicações.

Nosso blog conta a história. Aqui contaremos todos os principais fatos nesta que chamaremos e batizaremos de "A Revolta da Boleia" o movimento que parou o Brasil.

O PODER DAS REDES SOCIAIS NO INICIO DA REVOLTA
A insatisfação com o alto preço dos combustíveis era restrita a comentários dos consumidores nas redes sociais, muitas pessoas não acreditam na força da propagação de campanhas e movimentos pela rede mundial de computadores. Todos os movimentos de maior repercussão do país nos últimos anos surgiram por meio das redes sociais. Seria somente uma questão de tempo a adesão ao movimento que ganhou contornos de caos após quatro dias de paralisação dos caminhoneiros no Brasil em que chamo de “Revolta da Boleia”

Rapidamente, as críticas nas redes sociais se voltaram ao governo de Michel Temer, e ao presidente da Petrobras, Pedro Parente.

QUAL A EXPLICAÇÃO PARA O AUMENTO DESENFREADO DOS COMBUSITVEIS NO BRASIL
Em 3 de julho de 2018, a Petrobras iniciou uma mudança na política de preços dos derivados de petróleo, que incluem a gasolina, o diesel, o gás de cozinha (GLP). Até então, as variações internacionais do barril de petróleo não se refletiam nos preços dos combustíveis no Brasil, e quem arcava com o prejuízo era a Petrobras. A partir de então, os valores passaram a sofrer reajustes diários, que refletiam a variação internacional do preço do barril de petróleo. O argumento da Petrobras era evitar interferência política e prejuízos financeiros à empresa, que tentava se recuperar do saque em seus cofres sofrido durante o governo do PT. Com este argumento a Petrobras tentava transmitir credibilidade aos investidores.

A mudança teve impacto em todo o setor, porque a Petrobras detém, na prática, o monopólio do *refino no Brasil. (*Transformação do óleo bruto em derivados). Nesse período, o preço do óleo diesel subiu 56,5% na refinaria, tendo passado de 1,50 reais para 2,34, sem contar os impostos. Os dados são do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE).

TRÊS EXPLICAÇÕES PARA O AUMENTO
A primeira explicação para a alta do combustível é a elevação em mais de 50% no valor internacional do barril de petróleo, que bateu na marca dos 80 dólares nos últimos dias. Diversas motivações para esse aumento, como um acordo firmado no fim de 2016 entre a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), liderada pela Arábia Saudita, e a Rússia. Na ocasião, foi acertado um limite no ritmo de produção em 1,8 milhão de barris por dia.

A segunda seria a crise política na Venezuela e o rompimento do acordo nuclear com o Irã pelos EUA também influenciaram a escalada do preço. Em paralelo, há uma apreciação do dólar ante o real. A cotação atingiu o maior valor em dois anos atingindo em 18/05/2018 o valor de  – 3,74 reais – registrando a quarta semana consecutiva de alta da moeda frente ao real. Como o barril do petróleo é cotado na moeda americana, acabou por ser mais um fator de pressão sobre o preço dos combustíveis.

A terceira e última explicação, Por fim, no cenário interno, houve aumento de impostos federais que incidem sobre os combustíveis desde 2016, e estados como Minas Gerais e Rio de Janeiro elevaram a cobrança do ICMS.

A FUNÇÃO DA PETROBRAS...
Uma das questões centrais gira em torno da função da petroleira. Por ser uma empresa de capital aberto que tem o Estado brasileiro como sócio majoritário, entende-se que ela não deve operar como uma companhia privada comum. Não se discute que a empresa está sendo recuperada financeiramente dos rombos oriundos de atos de corrupção na empresa (Operação Lava Jato). Tanto o acionista majoritário como o minoritário querem a recuperação da empresa, mas para que isso ocorra o custo será altíssimo para o Brasil. A conta da corrupção, enfim chega nas mãos dos brasileiros.

Uma saída distinta e completamente radical, seria a empresa agir como uma estatal de fato, e em conjunto com o governo, fixar preços, em moldes parecidos aos praticados na década de 1950. Sabemos dos riscos e do retrocesso desta ação, mas cabe à atual Petrobras tomar as decisões quase que de forma autônoma.

Enquanto os dias vão passando a queda das ações nas bolsas de valores já somam mais de 45 bilhões de reais em perdas, dando a empresa brasileira prejuízos diários com desvalorização superior aos 14% na bolsa.

A ANP DIVULGA MEDIDAS EM TENTATIVA DE AMENIZAR OS EFEITOS DA REVOLTA
Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) anunciou uma série de medidas para garantir a continuidade do abastecimento de combustíveis nos postos e também para coibir a prática de preços abusivos.

Entre as medidas anunciadas estão:

- Liberação de distribuidores vinculados a uma marca para vender combustível de outra;
- Suspender a necessidade de manutenção de estoques mínimos de combustível;
- Flexibilizar a obrigatoriedade de misturar etanol na gasolina e biodiesel no diesel;
- Lliberação de distribuidores de gás de cozinha para encher o botijão de uma marca com produto de outra;
- Permitir que transportadores que só vendem para grandes frotas vendam para postos
- Intensificar a fiscalização contra preços abusivos e fortalecer o canal disk denúncias
- Bandeiras liberadas (Um posto poderá vender combustível de outra bandeira)

A ANP estima que 65% das vendas de gasolina são feitas por postos com bandeira. Hoje o posto bandeirado de uma marca não pode vender o combustível de outra. Medida similar foi tomada para as engarrafadoras de gás de cozinha. Com as medidas, a flexibilização do modelo oferece alternativa de suprimento por distribuidores cujas bases não tenham sido afetadas pelos bloqueios. No caso do diesel, 66% da distribuição é feita nos postos com bandeira. Para o etanol, o percentual é de 56%.

- Mistura de etanol e biodiesel: As adições de 27% de etanol e 10% de biodiesel, respectivamente, na gasolina e no diesel vendido nos postos deixam de ser obrigatórias temporariamente.

A exigência da mistura torna mais complexa a logística na cadeia de distribuição, pois adiciona o fluxo entre a usina produtora e o distribuidor, o qual, geralmente, é rodoviário. Esse fluxo também está sendo prejudicado pela paralisação, impedindo a realização de mistura em diversas bases que já têm o diesel A e a gasolina A, mas não o biodiesel e/ou o etanol anidro em quantidades suficientes. A flexibilização da obrigatoriedade de adição de 10% de biodiesel ao diesel e de 27% de etanol anidro à gasolina irá liberar os distribuidores a já expedirem os produtos para venda.

A GANÂNCIA EM TEMPOS DE REVOLTA
Postos chegaram a vender gasolina por 9,99 o litro (Em Brasília – Águas Claras) em meio ao desabastecimento. Muitos donos de postos escondem seu suprimento de gasolina comum e alegam ter somente o combustível aditivado, mais caro e com remarcação de preço pela escassez se torna ainda mais elevado para os consumidores. Muitos postos estão vendendo a gasolina comum somente após o desabastecimento de suas reservas de gasolina aditivada. As pessoas também não possuem uma mentalidade de partilha, pois cada um leva o que consegue transportar e em qualquer tipo de recipiente (autorizado pelo INMETRO ou não). Deixando filas de pessoas sem acesso ao combustível.  Os órgãos de defesa do consumidor não agem para fiscalizar os postos suspeitos de praticar preços abusivos e o caos é instalado em todo o país.

IDAS E VINDAS
Segundo o documento oficial do chamamento de greve, postado no site da Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam), oferece ao país os propósitos da paralisação. O principal deles é tornar o óleo diesel isento de impostos. Significando o fim das alíquotas do PIS (Programa de Intervenção Social) e do Cofins (Contribuição para o Orçamento da Seguridade Social).

Diante da pressão dos trabalhadores, a Câmara dos Deputados aprovou, uma medida que iria gradualmente zerar a cobrança desses impostos sobre o óleo diesel até o final do ano. Mas os cálculos do impacto financeiro foram feitos de forma equivocada pelo presidente da câmara induzindo os deputados ao mesmo erro. Mesmo alertado do erro pelo Ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marum, o presidente da câmara tocou a votação e aprovou a medida que seguiu para o senado surpreendendo o presidente da casa. O senador Eunício Oliveira, rebateu e criticou a postura do presidente da câmara alegando que de forma precipitada e protagonista Rodrigo Maia teria aprovado uma matéria equivocada.

Mas como eu havia dito lá no início da postagem, o movimento não possui líderes formais como os representantes da Abcam alegam ser. O movimento é oriundo de pessoas autônomas em sua maioria, não irão recuar sem ver atendidos seus pleitos.  Mesmo com o acordo assinado e amplamente divulgado na mídia, os caminhoneiros avisaram que a greve só termina o movimento após verem as medidas atendidas.

OUTROS ADEREM AO MOVIMENTO
No dia 25/05/2018 outros movimentos aderem ao ato de revolta. Transporte escolar, transportadores por aplicativos, moto-boys e taxistas, já iniciaram paralizações por todo o Brasil, uma vez que as declarações dadas no dia anterior pelo Ministro Eliseu Padilha, foram recebidas como uma afronta aos trabalhadores que dependem do uso da gasolina para exercerem suas funções. Padilha alegou publicamente não fazer parte da agenda de negociações o tema da gasolina. Limitando somente ao diesel os possíveis benefícios.

O PRESIDENTE SE PRONUNCIA...
Ao não ter efeito a coletiva ministerial realizada no dia 24/05/2018 em afirmação ao acordo firmado com as lideranças nacionais do movimento, o presidente Michel Temer faz pronunciamento à nação brasileira, onde assume e autoriza o uso das forças federais para garantir a livre circulação nas estradas federais e restabelecer o reabastecimento e a logística nacional que já estão as vias de um colapso, pois muitos estados já estão em estado de emergência nas áreas da saúde e segurança pública. O presidente clamou aos governadores que usem as forças estaduais disponíveis para auxiliar a volta do estado de normalidade no país. Chamou de minoria radical aqueles que ainda resistem aos atos de revolta.

...OS CAMINHONEIROS RESPONDEM AO PRONUNCIAMENTO
Estaremos diante de um conflito nos estados? Será que são mesmo minorias? Os caminhoneiros que estão nas estradas alegam que aqueles que estavam diante dos ministros para firmar o acordo, não os representa e alegam serem autônomos. Afirmam que nenhuma representação legitima dos caminhoneiros foram atendidos. Eles disseram que são os motoristas os verdadeiros autores da revolta e não sindicatos e associações.

Teremos que aguardar o desenrolar deste fato que ao passar ficará na história, sendo boa ou ruim...

Assista uma parte do pronunciamento presidencial:

O EXÉRCITO MOBILIZA SUAS TROPAS
Após o pronunciamento presidencial, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, “determinou a imediata mobilização de todo o efetivo da força para ser empregada tão logo o presidente Michel Temer terminasse o pronunciamento." A operação de desobstrução das estradas ocupadas pelo movimento de caminhoneiros foi colocada em pratica.

A operação terá a participação da força nacional, da Polícia Rodoviária Federal e das policias militares dos estados em conjunto com o Exército brasileiro.

A POLÍCIA FEDERAL INVESTIGA A INTENÇÃO DOS EMPRESÁRIOS
Empresários donos de transportadoras e empresas do ramo estão sendo investigados pela Polícia Federal que afirmou no dia 25/05/2018 que há indícios de crime por parte destas empresas que mantém seus caminhoneiros em greve bloqueando parte de rodovias em todo o Brasil.

A Polícia Federal informou por meio de nota, que já está investigando a associação para prática de crimes contra a organização do trabalho, a segurança dos meios de transporte e outros serviços públicos.

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou na noite do dia 24/05/2018 que há indícios de locaute, ou seja, uma 'aliança' entre caminhoneiros autônomos e empresas de transporte para forçar o governo a reduzir o preço do diesel.

AS REPRESENTAÇÕES
Sindicatos e instituições supostamente representativa dos caminhoneiros que inicialmente dialogaram com o governo, assumiram um compromisso que mais tarde não iriam cumprir. Eles recuaram e o governo investiu em um novo diálogo com os autônomos. Um novo acordo e uma nova promessa de fim da paralisação foi feita. Mas ao chegar o oitavo dia, nada mudou e a situação é ainda mais grave. 

CURIOSIDADES...
- Palmas foi a primeira capital do país a decretar a total falta de combustível.
- O combustível chega aos impressionantes R$14,00 em várias cidades do Brasil.
- O Departamento de Estado Americano emite alerta aos cidadãos que irão viajar ao Brasil, por meio de sua conta no twitter para que estoquem água e produtos domésticos por conta do desabastecimento no Brasil. 
- O Rio de Janeiro é a primeira capital a inciar a desmobilização.
- Mais de 20 liminares foram concedidas contra a mobilização dos caminhoneiros no Brasil.
- São Paulo ameaça confiscar combustíveis e fazer compras sem licitação ao decretar estado de emergência por falta de combustíveis.
- Posto de Brasília que cobrou R$9,99 pelo litro de gasolina no DF está sendo investigado pela polícia civil. Os donos foram chamados para prestar esclarecimentos.

Esta postagem sofrerá atualizações diárias, pois a história está sendo escrita diante dos seus olhos.