João Ramalho Maldonado (Vouzela, 1493 — São Paulo, 1580) é considerado por muitos um aventureiro e explorador português que de alguma forma chegou ao Brasil e viveu boa parte de sua vida entre índios tupiniquins por volta de 1515. Ele foi tão influente entre os índios que chegou a ser chefe de uma aldeia. Claro que tudo isso após se tornar amigo íntimo do famoso cacique Tibiriçá, importante líder indígena tupiniquim na época dos primeiros anos da colonização portuguesa no Brasil.

Ramalho teve um papel importante na aproximação pacífica entre índios e portugueses, principalmente na chegada de Martim Afonso de Sousa no Brasil, com quem se encontrou no território de São Vicente, e criou grande amizade. Vivia no povoado de Santo André da Borda do Campo, que em 1553 foi transformado em uma vila pelo governador-geral do país na época, Tomé de Sousa. Ramalho foi vereador e alcaide (prefeito) da vila. Fundou a dinastia de mamelucos (filhos de índios com portugueses) que, no século XVII, teve lugar de destaque na empreitada comercial-militar conhecida como bandeiras. João Ramalho é chamado, inclusive, de Patriarca dos Bandeirantes. É descrito nos registros históricos como um homem de cor morena devido ao sol, com grande porte atlético e possuía uma longa e garbosa barba.

João Ramalho tem um passado cercado de mistérios. É filho de João Vieira Maldonado e Catarina Afonso de Valbode, e nasceu supostamente em Vouzela, mas existem muitas outras teorias sobre seu nascimento e local do fato. Sua chegada no Brasil não é documentada oficialmente, deixando os historiadores em um mar de confusão quando falamos sobre João Ramalho. São várias as hipóteses de como Ramalho teria chegado ao sudeste brasileiro. Uma delas é como náufrago, possivelmente até da armada de Pedro Alvares Cabral, outra hipótese é que Ramalho teria sido exilado por algum crime cometido em Vouzela sua terra natal e a terceira hipótese é que ele teria sido voluntário para colonizar o Brasil após sua descoberta, para conquistar terras em um local ainda desconhecido. Também não se sabe quando ele chegou, podendo ser em algum período entre 1508 e 1511 ou em 1515 de fato... Não existem documentos para esta comprovação. Dizem ainda que Ramalho teria sido o primeiro português a habitar o Brasil meridional.

MAS COMO ASSIM?
Outro dado que torna misteriosa sua chegada no Brasil, e inclusive seu ano de nascimento, é a existência de uma Carta de Cavaleiro datada de 1487 com seu nome, ou seja, seis anos antes do seu suposto nascimento, em 1493. Ela está no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, e significaria que João Ramalho foi "cavaleiro, guarda-mor" do rei D. João II.

VOLTANDO AO ASSUNTO...
De sua chegada no Brasil até 1532, não há muitas informações do que aconteceu com João Ramalho. Ele encontrou índios tupiniquins ou piratiningas, com quem passou a viver, e ficou próximo do cacique Tibiriçá ("vigilante da terra", na língua tupi), um dos principais líderes dessa tribo no Planalto Paulista. Sua aldeia seria, segundo algumas fontes, na região onde hoje fica o Largo de São Bento.

Após sua aproximação, casou-se com uma das filhas do cacique, Bartira ("flor de árvore", em tupi), que posteriormente seria batizada sob o nome cristão de Isabel Dias. Porém, como era de costume entre os índios da tribo, possuiu outras mulheres, inclusive algumas irmãs de Bartira.

Formou, assim, uma forte aliança de sangue com os índios tupiniquins, uma aliança que, nas tradições indígenas, é para toda a vida. Segundo algumas fontes, se tornou inclusive influente entre os índios da aldeia, podendo arregimentar 5 mil índios em um só dia.

João Ramalho passou a ter uma conturbada relação com os padres. Eles o viam como um homem bruto que tinha várias mulheres, andava nu pela cidade e não respeitava os mandamentos cristãos. Mesmo assim, os padres jesuítas receberam o apoio tanto de João Ramalho quanto de Tibiriçá, sem os quais o projeto de expansão jesuítica na região teria sido mais complicado. Tibiriçá, inclusive, teria arregimentado os índios de sua aldeia para virem morar perto de Santo André da Borda do Campo, para que fossem doutrinados pelos jesuítas. Tibiriçá e João Ramalho foram também quem garantiram a segurança do local contra a investida de inimigos de outras tribos indígenas.

João Ramalho era excluído de participação carismática. Mesmo assim, em uma missa realizada na Capela de Santo André, na cidade de Santo André da Borda do Campo, João Ramalho teimou em participar, mesmo sem ter tal autorização, por isso, acabou expulso pelo padre Leonardo Nunes. O argumento utilizado pelo padre era que o português teria sido excomungado um tempo antes por viver em concubinato com mais de uma mulher. O padre teria ficado horrorizado com o que presenciava, como o cativeiro dos índios. Ele então seria quem teria tido excomungado João Ramalho.

Após João Ramalho ser expulso da missa, os filhos dele, que não eram poucos, resolveram tomar uma satisfação. Apareceram então na cidade armados com trabucos, (uma espécie de espingarda de um só cano, curto e de boca larga) estavam dispostos a matar o jesuíta Leonardo. Estavam lá os filhos André, o mais velho, com Vitório, Antonio, Marcos e João. Em casa ficaram as filhas Joana, Margarida e Antônia. Quando Bartira descobriu o que seus filhos estavam tramando, foi atrás deles, e os interceptou. Desarmou eles, e assim salvou a vida do padre Leonardo Nunes. Irritado com a atitude do padre, Ramalho foi se queixar com o superior local dos jesuítas, o padre Manuel da Nóbrega. Ramalho denunciou para ele o comportamento impróprio de alguns sacerdotes, que também teriam pecado contra a castidade, Isso teria levado Nóbrega a tomar medidas contra seus companheiros.

Após esse primeiro contato, Manuel da Nóbrega e João Ramalho se tornaram mais próximos, ficando amigos. Nóbrega teria batizado então Bartira, que recebeu o nome cristão de Isabel Dias. Nóbrega teria ainda tentado de todo modo retirar a excomunhão de João Ramalho, para criar para ele uma situação de dignidade moral e social. Escreveu para companheiros jesuítas em Portugal, pedindo informações da primeira mulher de Ramalho. Caso ela já tivesse falecido, Nóbrega poderia normalizar a situação de Ramalho. Ofereceu, inclusive, pagamento em açúcar para que isso acontecesse.

Algumas fontes dizem que Ramalho acabou tendo seu casamento católico com Isabel Dias, ou Bartira, porém, dizem que é provável que Nóbrega tenha descoberto que a primeira mulher de João Ramalho, Catarina Fernandes das Vacas, ainda estava viva, pois no testamento que João Ramalho fez em 1580, Bartira, ou Isabel Dias, era figurada como sua criada, e não como sua mulher. Foi nessa época também que o sogro de João Ramalho foi batizado, passando a se chamar Martim Afonso Tibiriçá, em homenagem ao explorador que conhecera anteriormente. Além disso, a pedido de Nóbrega, João Ramalho mandou seu filho mais velho, André, acompanhar o padre no interior do território, em uma expedição que tinha como objetivo buscar mais índios, para que esses fossem catequizados.

Como gratidão ao serviço prestado na vila, João Ramalho teria sido novamente eleito vereador de São Paulo, em 1564. Porém, já velho (por volta dos setenta anos), Ramalho recusou o posto, como consta da ata da Câmara Municipal de 15 de fevereiro de 1564. Ramalho decidiu então abandonar o Planalto Paulista, e foi morar em uma cabana rústica no vale do Paraíba, onde se hospedou na casa de Luís Martins. Já adoecido, João Ramalho chamou então, em 3 de maio de 1580, o tabelião Lourenço Vaz, e ditou para ele seu testamento. O documento ficou transcrito nas notas do tabelião na vila de São Paulo. Nele, estava narrada a vida de João Ramalho. Frei Gaspar da Madre de Deus alegou mais tarde que possuía uma cópia do documento original, mas poucas pessoas de fato tiveram acesso ou manusearam o testamento de Ramalho. Faleceu então dois anos depois, em 1582, em local desconhecido.

No final do século 19 e começo do 20, muitas pessoas começaram a pesquisar mais histórias sobre João Ramalho. Membros do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, criado em 1894, seriam alguns dos principais pesquisadores da história do português. Alguns historiadores teriam inclusive ido a Portugal para descobrir a origem de João Ramalho, e concluíram que ele não tinha origem na nobreza. A descoberta foi feita a partir de análises caligráficas de suas assinaturas, quando notou-se que elas haviam sido escritas por várias pessoas, e não por ele, indicando a hipótese de que ele seria analfabeto.

Na época da comemoração do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil, em 1900, São Paulo buscava algum personagem que pudesse representar a força do Estado, sendo que Pedro Álvares Cabral não era uma das opções, por não ter tido um papel representante em São Paulo. Logo, para alguns intelectuais da época, João Ramalho poderia ser esse personagem; porém, relatos de jesuítas que espalhavam uma má fama de Ramalho era prejudicial a isso. Por isso os historiadores começaram a pesquisar a vida do português com mais afinco. Como resultado, em 1927, vereadores paulistanos homenagearam o casal Bartira e João Ramalho colocando seus nomes em duas ruas no bairro Perdizes, na região oeste de São Paulo.

É lembrado também como o responsável por levar ao sertão do Brasil um pouco da cultura europeia, sempre carregando a bandeira de Portugal. Por isso, inclusive, é lembrado como o Patriarca dos Bandeirantes. É lembrado ainda como um dos portugueses com maior influência na miscigenação entre indígenas e europeus, sendo que seus descendentes, os mamelucos, seguiram seus passos e foram bandeirantes no sertão brasileiro, conquistando terras. Sua importância no sertanejo brasileiro também foi significativa, pois ao chegar aos locais interioranos do Brasil, acabou introduzindo novos métodos de administração, novos costumes e novos usos, que resultaram em mudanças e adaptações da língua e das religiões locais.

A visão antiga da história criou personagens envoltos em histórias românticas e repleta de atos de bravura, mas quando estudamos com mais profundidade podemos perceber que não eram tão bravos e suas histórias não eram tão belas assim. São pessoas comuns, como nós, muitos até cheios de muita maldade. Tire suas conclusões e sempre vá além dos livros! Eles não contam toda a verdade...