Nosso personagem histórico, era conhecido como alcoviteiro e puxa-saco, para fazer o bom uso da linguagem contemporânea. As afirmações a respeito do moço eram tidas como caluniosas. Se o famoso Chalaça foi capaz de uma tremenda escalada social, saindo da função de serviçal e indo direto para a função de assessoria do Imperador brasileiro, tudo isto aconteceu principalmente por possuir uma inteligência fora do comum. Ele era habilidoso como conselheiro, e tinha sempre uma saída para resolver problemas, fossem dele ou do imperador. Também era visto como um dos mais brilhantes filósofos do império naquela época. Desenvolvendo algumas teorias no mínimo divertidas a meu ver.

Conheça uma das tantas teorias filosóficas de Chalaça.
(Não vamos nos aprofundar no tema)

Ele estabelece a profunda relação entre o fluxo sanguíneo e o funcionamento do cérebro no momento da cópula, o que explica as diversas atitudes masculinas. (Um tipo de "desculpa" para explicar a infidelidade masculina)

Os feitos do Chalaça
O Chalaça foi uma figura marcante e esteve em todos os grandes acontecimentos de sua época!
- Bradou, junto ao imperador, às margens do Ipiranga. 
- Escreveu a primeira Constituição e dissolveu com bravura a primeira Assembleia Constituinte.

O homem e o mito
Francisco Gomes era seu nome de batismo e ele também era um mestre em fazer as pessoas rirem. Não é à toa que seu apelido "Chalaça" significa gracejo, caçoada, zombaria. Seu humor fino, de bom tom e inteligente, aliados ao talento musical eram de grande percepção e admiração aos membros da côrte. Ele possuía também habilidade ao intermediar os encontros de D. Pedro I com as filhas de Eva, as meninas fizeram com que ele fosse a companhia favorita do imperador.

Muito do que sei sobre ele vem de fragmentos de histórias contadas quase que em romance nas páginas do próprio diário, pode ser que em seu manuscrito, ele falte com a verdade em "alguns trechos", mas não podemos e nem temos instrumentos históricos que confirmem ou que nos coloque em posição de julgadores do nobre acompanhante do imperador.
Por isso vou me limitar em oferecer aos amigos um breve relato biográfico sobre ele.

Ele era o filho bastardo de Francisco José Rufino de Sousa Lobato, 1.º Barão de Vila Nova da Rainha e 1.º Visconde de Vila Nova da Rainha, sua mãe era Maria da Conceição Alves, aldeã jovem e pobre, que trabalhava como criada nos aposentos do Visconde.
Uma vez seduzida, foi o bastante para que a moça engravidasse, mais tarde registrando a criança como "filho de pai desconhecido". Apesar de não assumir o filho, o futuro Barão e atual Visconde o manteve sempre por perto, com todo o conforto, até o momento em que decidiu se casar com a filha do futuro 1.º Visconde de Santarém.

Com o casamento foi natural que a noiva não quisesse saber de convivência com a "outra" sob o mesmo teto. Para agradar a esposa, o Visconde teve de mandar sua "declarada" amante para a África, posteriormente  desaparecendo com o menino Francisco, que beirava os oito anos de idade. A solução encontrada foi engenhosa! O futuro Barão pagou oito mil cruzados (soma considerável na época) a um protegido, chamado Antonio Gomes, para que ele assumisse a paternidade do menino e o registrasse como filho legítimo. O pai "arranjado" ainda ganhou, por influência do futuro Visconde, um emprego público como Ourives da Casa Real.

Quanto ao pobre garotinho  Francisco, acabou por ser mandado para o seminário de Santarém, preparando-se para a suposta vocação de ser padre. Lá, aprendeu filosofia e latim, além de falar fluentemente francês, inglês, italiano e espanhol. Este preparo intelectual e cultural o ajudaria na idade adulta.

Estava quase para ser ordena do padre, quando chegaram as notícias dos preparativos da fuga da corte portuguesa para o Brasil.
(Por conta da invasão promovida por Napoleão Bonaparte ao reino de Portugal) Nesta altura ele já contava com seus 16 anos. Brigou com o reitor e com o padre-mestre de disciplina do seminário e viajou para Lisboa, decidido a participar dos acontecimentos. No caminho, foi preso por uma guarnição de soldados franceses e condenado como espião. Às vésperas de ser fuzilado, conseguiu por acaso fugir de forma espetacular da prisão, chegando ao cais de Lisboa na mesma manhã em que D. João VI e sua corte embarcavam para o Brasil.
De alguma forma conseguiu reencontrar seu pai arranjado que o ajudou a entrar na embarcação. De condenado à morte, passou a membro da multidão de mais de 15 mil lusitanos que desembarcariam no Rio de Janeiro em março de 1808.

O garoto chega ao Brasil
Já no Rio de Janeiro, seu pai arranjado Antonio Gomes que era ourives, estabeleceu-se na rua Direita (atual rua Primeiro de Março). Então, o garoto passou a auxiliá-lo, mas logo suas noitadas boêmias e desordeiras levaram o jovem a uma séria briga com o "pai". Fazendo com que saísse de casa, para se manter acabou abrindo uma tenda de barbeiro na rua do Piolho (atual rua da Carioca), onde trabalhava como cirurgião, dentista e sangrador, aplicando sanguessugas e ventosas em seus pacientes e clientes, segundo os princípios de medicina da época.

Em 1810 já era visto nos arredores e algumas vezes no interior do palácio, obtendo a inclusão na lista de criados honorários do Paço. Um ano depois, era nomeado Moço de Reposteiro por D. João. Em 1812, aos 21 anos, já recebia algumas vantagens por sua atuação em "serviços reservados" prestados ao Príncipe Regente.

Considerando que a corte era um ninho de intrigas entre facções rivais que se espionavam mutuamente, compreendemos que o jovem Chalaça já começava a desenvolver ali algumas das "qualidades" que o tornariam famoso mais tarde. Tanto que em 1816 já era Juiz da Balança da Casa da Moeda e logo tornava-se o amigo favorito do príncipe D. Pedro, que encontrou no Chalaça o companheiro ideal para farras e escapadas noturnas.

D. João temia sobremaneira as maquinações de sua esposa, D. Carlota Joaquina, razão pela qual a mantinha sob discreta vigilância. O Chalaça logo teria papel destacado nesse jogo de espionagem familiar, o que lhe garantiu o ódio da "espanhola maldita". A esperta rainha esperava apenas uma chance para derrubar o inteligente jovem. E a chance veio em 1817, quando Chalaça cometeu seu maior erro! Após denúncia de Carlota Joaquina, foi flagrado pelo próprio D. João numa sala do palácio em companhia da dama do Paço D. Eugênia de Castro, ambos nus e em atitude que não deixava dúvidas. D. João expulsou-o de seu serviço e baixou ordem de que o Chalaça deveria manter-se a uma distância mínima de dez léguas da côrte.

Vendo tudo acabado o jovem Chalaça  seguiu para Itaguaí, abrigando-se na casa de um vigário conhecido desde os tempos do seminário de Santarém, até que a intervenção e influência de seu verdadeiro pai, o Visconde de Vila Nova da Rainha, reabilitou-o junto a D. João VI.

A rua Direita (atual rua Primeiro de Março) era a mais importante do Rio de Janeiro do início do século XIX. Neste ambiente social em mutação, onde soldados, escravos, comerciantes e fidalgos tentavam a sorte, havia espaço para as investidas de um aventureiro sem escrúpulos e intelectualmente bem dotado.

Ele decidiu que com os problemas resolvidos desde a invasão de portugal, iria voltar para Portugal e com sua insistência em voltar para com D. João VI acabou desagradando D. Pedro, que sentiu-se traído pelo companheiro de farra. Mas D. João VI também não levou Chalaça em sua comitiva, deixando o rapaz em má situação no Brasil. Iniciaria ali uma árdua luta para re conquistar a amizade de D. Pedro, fato que só ocorreu  em 1822, já muito perto dos acontecimentos que levariam à Independência. Como membro da Guarda de Honra de D. Pedro I, passou a tenente em 1823, capitão em 1824 e coronel comandante em 1827.

Chalaça acompanhou o príncipe a São Paulo como uma espécie de secretário particular, e tão bem exerceu sua função que D. Pedro não queria mais outra pessoa ao seu lado. O Chalaça também era dono de uma caligrafia excelente, dominava várias línguas, escrevia com correção, tinha o pensamento organizado, um perfeito administrador. Por outro lado, prestava também outros "servicinhos", como arregimentar belas mulheres. A mais fascinante de todas surge na vida de D. Pedro exatamente nesta viagem a São Paulo e se chamava Maria Domitila de Castro Canto e Melo, que mais tarde receberia o título de Marquesa de Santos.

A história comprova que Domitíla teve um relacionamento com D. Pedro. Pode ser provável também, conforme aponta o escritor Cipriano Barata, que Domitíla e o Chalaça foram amantes mancomunados para extrair do príncipe o maior lucro possível. O fato é que, a partir da Independência, a influência do Chalaça junto ao imperador aumentou, e foi traduzida em diversos títulos honoríficos e fortunas.

O Chalaça viveu durante muito tempo numa grande casa na avenida Maracanã, que posteriormente serviu de residência oficial aos Ministros do Exército.

A lista de feitos do filho bastardo do Visconde de Vila Nova da Rainha é imensa, dos quais já destacamos alguns anteriormente ainda podemos destacar outros tantos envoltos em névoa de imprecisão histórica, por ter sido contados os fatos pelo próprio Chalaça

De acordo com Chalaça:
Ele teria sido incentivador direto da Independência, o primeiro a compartilhar a intenção de D. Pedro em proclamá-la.

Fez assessoria direta do imperador, que tinha pretensões literárias, escrevendo para ele discursos, textos para jornais e até mesmo artigos inteiros da Constituição brasileira de 1824

Organizou uma espécie de gabinete particular, um "ministério paralelo" que influenciava importantes decisões do Império. Este suposto gabinete seria chamado pelos contemporâneos de Conselho Secreto, Camarilha Palaciana e Gavetário do Chupa-Chupa.

Após a morte da primeira esposa de D. Pedro I, a Imperatriz Leopoldina, Chalaça foi a Paris pedir, em nome do Imperador, a mão da filha do rei Luís Filipe de Orléans, (o rei cidadão) escolha que causou escândalo. Um Imperador desorganizado se fazia representar por um enviado amoral e devasso. Além do mais, era o alcoviteiro, o oportunista, o intermediário de negócios escusos...

O início do fim
Em 1828 teve um filho, dando a ele seu mesmo nome de batismo, Francisco Gomes da Silva. Logo depois, em 25 de abril de 1830 partiu para o Reino das Duas Sicílias como embaixador plenipotenciário do Império. A nomeação fora armada por seus adversários, entre os figurava o Marquês de Barbacena, que acabava de trazer da Europa a nova esposa do Imperador. Na verdade, D. Pedro I, entregue às delícias do segundo casamento em 1830 com a bela D. Amélia de Leuchtenberg, tomou a decisão e mandou que Chalaça fechasse o chamado "Gabinete Secreto". Assim o Chalaça foi sendo diminuído e esquecido pelo imperador, seguindo para Portugal...

Chalaça jamais voltaria ao Brasil. Pois a visão dos brasileiros sobre ele marginalizava sua história, as pessoas o rotulavam de corrompido e corruptor, pois ele pagava jornais, como a Gazeta do Brasil para insultarem os políticos liberais da época... Os políticos chamavam Chalaça de garoto de recados das concubinas do imperador, também era chamado de insolente, antipático ao Brasil e aos brasileiros.

Já na Europa, Chalaça escreveu três livros (dois deles destinados a denegrir a imagem de seu inimigo, o Marquês de Barbacena.

- A Exposição do Marquez de Barbacena
- Memórias oferecidas à nacção brazileira, editado em Londres em 1831.

Sua vida na corte ainda não teria fim, mas desta vez em terras portuguesas, sendo convidado por D. Pedro, em 1833, para ser secretário de estado da casa de Bragança.

Em 1834 morreu D. Pedro, deixando viúva sua segunda esposa, Dona Amélia. Quatro anos depois, em 1838, circulou o boato de que Chalaça se casou secretamente com Dona Amélia em Berlim e ali passou a viver. Nenhum historiador sério, porém, admite ou conseguiu comprovar esta versão relatada.

Últimos dias
Em 1851, velho e doente, Chalaça faz a partilha de seus bens entre os filhos legítimos e ilegítimos. Mesmo após tantos anos de luxo e ostentação, com dezenas de amantes e viagens esbanjando todo seu poder financeiro, ainda deixa uma fortuna colossal, quatro vezes maior, por exemplo, do que a de sua oportunista e suposta sócia, a Marquesa de Santos.

Na tarde de 30 de dezembro de 1852, o Chalaça morreu em Lisboa, no palácio dos Duques de Bragança, tendo seu filho e biógrafo registrado suas últimas palavras durante a extrema-unção:


"Padre José, eu amei demais as mulheres e o dinheiro…"